texto de: O Coxo
Nunca me convenceu a história do Pai Natal descer pela chaminé. Pela varanda sim, pela janela do quarto com vista para a palmeira talvez, pela porta da frente que estava sempre aberta.
À dona Arminda que vivia duas casas abaixo uma vez entrou-lhe um gatuno pela janela da cozinha e roubou-lhe o leitor VHS, o gira discos e um broche de prata que estava em cima da cómoda da entrada
– veja lá que nunca o ponho na cómoda da entrada e ontem...
O broche de prata e uma nota de cinquenta escudos rasgada num canto.
E a nós nem pela chaminé nem pela cozinha nem pela porta da varanda onde dormia o cão. Felizmente o cão. Um rafeiro tão sem raça que não queria ter nome. Chamámos-lhe Rex, Bolinha, Apolo, Pluto, Nero, Pipoca, Ringo, Snoopy, Trovão, Spoutnick.
A minha mãe ao vigésimo nome
– se calhar é surdo
Mas não, porque digo senta e ele senta. Assobio lá de baixo da casa do Fernando e nem dez segundos e o rafeiro a abanar a cauda em frente ao portão.
Se calhar o Pai Natal pela varanda não por causa do cão. Talvez pela janela do quarto apesar de pequena e da pouca luz no inverno.
Pela chaminé é que não de certeza.
Uma vez espreitei pela chaminé e uma nuvem de fuligem nos olhos. Os olhos como quando o champô no banho ou uma vez ao pôr o creme das alergias – em caso de contacto com os olhos lavar abundantemente com água. Consultar o seu médico no caso de irritação prolongada. A cara negra e a minha mãe numa irritação prolongada
– que andavas a fazer na chaminé ?
Nunca me convenceu a chaminé. Por isso nas noites de consoada a janela do quarto nunca trancada. Ao mínimo barulho – os ratos no sotão, os móveis que estalam, esses ruídos sem dono que habitam as casas velhas – ao mínimo barulho espreitar pela janela.
Ao mínimo barulho espreitar pela janela mesmo se o irmão mais velho
– O Pai Natal não existe, a sério não existe
Apesar disso não acreditar que não existe, não acreditar que a sério.
E um dia um barulho sem ser dos ratos no sotão ou dos móveis que estalam (muito provavelmente a janela do quarto que fica sempre aberta pelo sim pelo não).
Um dia um barulho sem ser dos ratos e eu a fingir dormir (difícil não piscar os olhos, aguento cinco, seis segundos no máximo).
Sentir um vulto na direcção da sala
– não existe, a sério não existe.
Na manhã seguinte acordar e a minha mãe sobressaltada na cozinha. Parece que já não temos o leitor VHS, o televisor e o candelabro que fica por cima da lareira. Os senhores da polícia não descobriram sinais de arrombamento
– pela varanda não que há o cão.
– só se foi pela chaminé, já tivemos um caso de uma chaminé.
Nunca me convenceu a chaminé.
A dona Arminda jura que não ouviu nada e eu tão pouco pois normalmente ao mínimo ruído espreito pela janela e nessa noite, depois do Pai Natal sair, só mesmo o barulho do vento a agitar a palmeira.
Thursday, 20 December 2007
Natal e VHS
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Tuesday, 11 December 2007
News from Mars

photo: Victoria Crater, Mars, about 800 meters in diameter. This view shows the NASA's Exploration Robot Rover path during 14 of the rover's first 46 months on Mars.
Both Spirit and its sister rover, Opportunity, have continued to work long past their designed mission lives of 90 days. Spirit has been on station for 1,400 days; Opportunity, which is on the far side of the planet, has been operational for a slightly shorter period of 1,379 days.
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Wednesday, 5 December 2007
Um Adeus Português
Excerto do poema "Um Adeus Português" de Alexandre O'Neill
Nos teus olhos altamente perigosos
vigora ainda o mais rigoroso amor
a luz de ombros puros e a sombra
duma angústia já purificada
Não tu não podias ficar presa comigo
à roda em que apodreço
apodrecemos
a esta pata ensanguentada que vacila
quase medita
e avança mugindo pelo túnel
de uma velha dor
Não podias ficar nesta cadeira
onde passo o dia burocrático
o dia-a-dia da miséria
que sobe aos olhos vem às mãos
aos sorrisos
ao amor mal soletrado
à estupidez ao desespero sem boca
ao medo perfilado
à alegria sonâmbula à vírgula maníaca
do modo funcionário de viver
(...)
Nesta curva tão terna e lancinante
que vai ser que já é o teu desaparecimento
digo-te adeus
e como um adolescente
tropeço de ternura
por ti
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Thursday, 29 November 2007
oportocool
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Sunday, 18 November 2007
Sul
Ainda nos queima o vermelho da terra. A cor quente de ferro fundido escavando sulcos na obstinação
- Quero ficar !
Ferro e chamas. Um barulho metálico aquece a atmosfera. E todavia o mar. E todavia o magma derramado que se torna negro e entra água adentro. O ferro escorrendo pela vontade adentro
- Deixem-me quero ficar !
Os olhos cheiram o vermelho da terra. São os olhos que inevitavelmente cheiram o vermelho da terra. Um odor observado que apesar disso queima.
Por isso o sul. Por isso tardes derradeiras. Por isso sofrer as transpirações da carne sem respirar. Sufocar na luz doce do crepúsculo, incapaz de a capturar com mãos habilmente tecidas. Mãos em súplica.
Na tarde enfim devota, mãos em súplica e o ar oscilando narrativas.
Corremos na direcção de um ponto cardinal de boca aberta e cabelos utópicos. Utópicos porque demasiado finos. Tão finos que perfuram o rosto enquanto corremos. Chegámos de rosto perfurado e abrimos mais a boca até que a luz invada o esófago. Aceitamos o alimento imputrescível. O corpo excessivo em suspensão na direcção cardinal enquanto mastigamos tudo isto.
Ainda a obstinação: Fogo e mar.
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Filmar en América Latina
Este mês, por Genève:
http://www.filmaramlat.ch/
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Sunday, 4 November 2007
Monday, 29 October 2007
Requiem para o Antunes
Tenho impressão que perdemos algo. Da última vez que estive no Porto, não me cruzei com o guarda Sousa
agente Sousa se faz favor
não me cruzei com o agente Sousa nem com o Martins. Em vez dos bigodes farfalhudos e da barriga generosa, uns jovens imberbes de punho nervoso e peito inchado. Em vez do Antunes que aos fins de semana fazia de segurança na fábrica, um moço novo de sorriso intransigente.
Onde é que param o agente Gonçalves que se passeava no bairro de tasca em tasca, o Cunha que morava no terceiro esquerdo, o Freitas que safava as multas de estacionamento ?
Tenho saudades da indulgência dum "desta vez passa, veja se vai mais devagarinho e não beba mais de dois copos". Sinto falta da sonoridade de um "ó amigo vou ter que o autuar porque infringiu...". Já ninguém me diz "olhe que agora temos ordens para não perdoar nada, tá com sorte de eu estar bem disposto".
Ainda me lembro do Antunes a correr atrás de nós de pistola em punho. Nós por trás das latas do lixo: "ó Antunes tás comó aço: foi cerveja ou foi bagaço ?". Um reboliço de galinhas em fuga, penas por todo o lado e o Antunes saído do meio das penas num passo trôpego. A pistola (carregada ?) apontada ao Zé Tó. Procurar refúgio nas ilhas e voltar à carga quando o Antunes desistia ofegante.
Ainda vejo o Antunes por lá. Reformado. Estende-me a mão (carregada?) e falamos do bairro.
Havia também o manco do café da rua de baixo. Fazia trabalho de secretaria na policia durante metade do dia e a outra metade passava-a à porta do café a vigiar o bairro. Olhava-nos com uma raiva de cão castrado. Conjurava para nos apanhar em delito.
Hoje senta-se no balcão a ver a rua deserta. Ninguém para tocar às campainhas (velhinhas acudindo à porta em sobressalto: "quem é ?"). Ninguém para sabotar a luz na rua (eu nas costas do Manel de lanterna apontada ao sensor fotovoltaico e de repente escuro). Ninguém para levar o Quim ao poste (debater-se em vão porque mais novo, o Quim sabia karaté dos filmes mas não lhe valia de muito).
E o manco a assistir a tudo isto impotente.
Agora tem saudades. Estou certo que tem saudades porque quando passo já não o olhar de cão castrado. Já não o "um dia apanho-vos". Em vez disso um olhar de "olha quem ele é !" e uma vontade amordaçada de vir perguntar
"como vai a vida ?"
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Tuesday, 16 October 2007
Faz-se luz pelo processo
Mário Cesariny em "Pena Capital"
Faz-se luz pelo processo
de eliminação de sombras
Ora as sombras existem
as sombras têm exaustiva vida própria
não dum e doutro lado da luz mas no próprio seio dela
intensamente amantes loucamente amadas
e espalham pelo chão braços de luz cinzenta
que se introduzem pelo bico nos olhos do homem
Por outro lado a sombra dita a luz
não ilumina realmente os objectos
os objectos vivem às escuras
numa perpétua aurora surrealista
com a qual não podemos contactar
senão como os amantes
de olhos fechados
e lâmpadas nos dedos e na boca
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Tuesday, 9 October 2007
Sunday, 7 October 2007
Thursday, 4 October 2007
A foto do castelo ausente
Tirada um destes dias em Edimburgo, a foto é o somatório dos seguintes elementos:
1. O Castelo ausente.
O castelo, se bem que ausente da foto, é o elemento primordial, mitológico. Precipita-se no promontório numa verticalidade de pedra. Em baixo os homens veneram-no.
A ausência alimenta o mito.
2. A cidade.
A cidade desceu do castelo. Cravou raizes na aresta. Depois floresceu numa prodigalidade de ruelas caindo morro abaixo.
Outra analogia: primeiro o dorso nú, a espinha, o nervo. Depois as costelas, frágeis, inevitáveis.
3. Os homens.
Os homens jazem nos jardins. Dormem trespassados pelo vento que corre das ameias. O odor da carne extinguida alimenta a migração dos mitos do interior do castelo para o interior dos homens.
Ou então mais simples: estendem-se na relva como répteis e deixam o sol aquecer-lhes o sangue. Quando não há sol fazem luminoterapia, suicidam-se.
Os homens às vezes têm o sangue frio.
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