Sunday, 18 November 2007

Sul


















Viemos do sul. Na pele invulgarmente amarga o sol cultivou sal, suor bebido numa ilusão de mar.

Ainda nos queima o vermelho da terra. A cor quente de ferro fundido escavando sulcos na obstinação

- Quero ficar !

Ferro e chamas. Um barulho metálico aquece a atmosfera. E todavia o mar. E todavia o magma derramado que se torna negro e entra água adentro. O ferro escorrendo pela vontade adentro

- Deixem-me quero ficar !

Os olhos cheiram o vermelho da terra. São os olhos que inevitavelmente cheiram o vermelho da terra. Um odor observado que apesar disso queima.

Por isso o sul. Por isso tardes derradeiras. Por isso sofrer as transpirações da carne sem respirar. Sufocar na luz doce do crepúsculo, incapaz de a capturar com mãos habilmente tecidas. Mãos em súplica.

Na tarde enfim devota, mãos em súplica e o ar oscilando narrativas.

Corremos na direcção de um ponto cardinal de boca aberta e cabelos utópicos. Utópicos porque demasiado finos. Tão finos que perfuram o rosto enquanto corremos. Chegámos de rosto perfurado e abrimos mais a boca até que a luz invada o esófago. Aceitamos o alimento imputrescível. O corpo excessivo em suspensão na direcção cardinal enquanto mastigamos tudo isto.

Ainda a obstinação: Fogo e mar.

Filmar en América Latina

Este mês, por Genève:

http://www.filmaramlat.ch/






Sunday, 4 November 2007

O que resta do azul



O Coxo na Pointe percée, Haute Savoie, France

Monday, 29 October 2007

Requiem para o Antunes

Tenho impressão que perdemos algo. Da última vez que estive no Porto, não me cruzei com o guarda Sousa

agente Sousa se faz favor

não me cruzei com o agente Sousa nem com o Martins. Em vez dos bigodes farfalhudos e da barriga generosa, uns jovens imberbes de punho nervoso e peito inchado. Em vez do Antunes que aos fins de semana fazia de segurança na fábrica, um moço novo de sorriso intransigente.

Onde é que param o agente Gonçalves que se passeava no bairro de tasca em tasca, o Cunha que morava no terceiro esquerdo, o Freitas que safava as multas de estacionamento ?

Tenho saudades da indulgência dum "desta vez passa, veja se vai mais devagarinho e não beba mais de dois copos". Sinto falta da sonoridade de um "ó amigo vou ter que o autuar porque infringiu...". Já ninguém me diz "olhe que agora temos ordens para não perdoar nada, tá com sorte de eu estar bem disposto".

Ainda me lembro do Antunes a correr atrás de nós de pistola em punho. Nós por trás das latas do lixo: "ó Antunes tás comó aço: foi cerveja ou foi bagaço ?". Um reboliço de galinhas em fuga, penas por todo o lado e o Antunes saído do meio das penas num passo trôpego. A pistola (carregada ?) apontada ao Zé Tó. Procurar refúgio nas ilhas e voltar à carga quando o Antunes desistia ofegante.

Ainda vejo o Antunes por lá. Reformado. Estende-me a mão (carregada?) e falamos do bairro.

Havia também o manco do café da rua de baixo. Fazia trabalho de secretaria na policia durante metade do dia e a outra metade passava-a à porta do café a vigiar o bairro. Olhava-nos com uma raiva de cão castrado. Conjurava para nos apanhar em delito.

Hoje senta-se no balcão a ver a rua deserta. Ninguém para tocar às campainhas (velhinhas acudindo à porta em sobressalto: "quem é ?"). Ninguém para sabotar a luz na rua (eu nas costas do Manel de lanterna apontada ao sensor fotovoltaico e de repente escuro). Ninguém para levar o Quim ao poste (debater-se em vão porque mais novo, o Quim sabia karaté dos filmes mas não lhe valia de muito).

E o manco a assistir a tudo isto impotente.

Agora tem saudades. Estou certo que tem saudades porque quando passo já não o olhar de cão castrado. Já não o "um dia apanho-vos". Em vez disso um olhar de "olha quem ele é !" e uma vontade amordaçada de vir perguntar

"como vai a vida ?"

Tuesday, 16 October 2007

Faz-se luz pelo processo

Mário Cesariny em "Pena Capital"

Faz-se luz pelo processo
de eliminação de sombras
Ora as sombras existem
as sombras têm exaustiva vida própria
não dum e doutro lado da luz mas no próprio seio dela
intensamente amantes loucamente amadas
e espalham pelo chão braços de luz cinzenta
que se introduzem pelo bico nos olhos do homem

Por outro lado a sombra dita a luz
não ilumina realmente os objectos
os objectos vivem às escuras
numa perpétua aurora surrealista
com a qual não podemos contactar
senão como os amantes
de olhos fechados
e lâmpadas nos dedos e na boca

Tuesday, 9 October 2007

Back to Zermatt
















Capela algures no percurso de descida do refúgio de Gandegghut para Zermatt.

Sunday, 7 October 2007

Thursday, 4 October 2007

A foto do castelo ausente


















Tirada um destes dias em Edimburgo, a foto é o somatório dos seguintes elementos:

1. O Castelo ausente.

O castelo, se bem que ausente da foto, é o elemento primordial, mitológico. Precipita-se no promontório numa verticalidade de pedra. Em baixo os homens veneram-no.

A ausência alimenta o mito.

2. A cidade.

A cidade desceu do castelo. Cravou raizes na aresta. Depois floresceu numa prodigalidade de ruelas caindo morro abaixo.

Outra analogia: primeiro o dorso nú, a espinha, o nervo. Depois as costelas, frágeis, inevitáveis.

3. Os homens.

Os homens jazem nos jardins. Dormem trespassados pelo vento que corre das ameias. O odor da carne extinguida alimenta a migração dos mitos do interior do castelo para o interior dos homens.

Ou então mais simples: estendem-se na relva como répteis e deixam o sol aquecer-lhes o sangue. Quando não há sol fazem luminoterapia, suicidam-se.

Os homens às vezes têm o sangue frio.

Wednesday, 3 October 2007

Control












Um filme que esperava há algum tempo. Aqui está finalmente, e parece merecer a expectativa...

http://momentum.control.substance001.com/

Anton Corbijn's Control is about the troubled life and times of post-punk legend Ian Curtis, the lead singer of Joy Division, who killed himself in 1980 at the age of 23, depressed by his epilepsy, his failing marriage and by the uncontrollable intensity of the nihilistic emotions displaced by his life into his art - emotions that consumed him. Critics have described this portrayal of troubled singer Ian Curtis as "spectacular" and "outstanding".

International premiere: Cannes Film Festival May 17th 2007
UK Release: October 5th

Tuesday, 25 September 2007

Não toques nos objectos imediatos

Herberto Helder em "Poesia Toda»

Não toques nos objectos imediatos.
A harmonia queima.
Por mais leve que seja um bule ou uma chávena,
são loucos todos os objectos.
Uma jarra com um crisântemo transparente
tem um tremor oculto.
É terrível no escuro.
Mesmo o seu nome, só a medo o podes dizer.
A boca fica em chaga.

Monday, 17 September 2007

Janela para as traseiras na Jordânia

Quando viajo, prefiro hotéis básicos. Desses que normalmente têm lugar na secção budget do Lonely Planet. Não pelo preço, mas porque gosto desses lugares crus, quase extensões da rua, em que os gestos não são pensados para alimentar estereótipos numa espécie de reconfortante mentira encenada para o turista.
Mas esta visão romantizada do intrépido viajante ocidental mostrou os seus limites esta semana, quando subia as escadas do Madaba Hotel na Jordânia às 4h da manhã e a porta se abriu sobre um quarto poeirento, habitado por pequenos seres repugnantes que perscutavam as frestas mais obscuras da divisão com as suas anteninhas nervosas. Essa noite, dentro do saco cama sonhei com a Metamorfose de Kafka.

No dia a seguir à mesma hora já dormia no conforto de um dois estrelas, embalado por vozes com sotaque britânico que ecoavam no corredor.

O dia passou-se nas margens do mar morto, com o passaporte sempre à mão para apresentar aos simpáticos polícias que vigiam a fronteira com Israel e os territórios ocupados, e a observar os turistas entregues ao ritual estive-lá-fiz-o-que-toda-a-gente-faz de boiar sossegadamente nas águas salgadas do mar morto enquanto liam o último livro do Paulo Coelho.

Em Petra esperáva-nos o Al Anbat Hotel II. O número II é de extrema importância pois implica que existe algures um Al Anbat Hotel I, provavelmente com lençois limpos. Nunca saberei. Fico com a recordação do conforto do meu saco cama e a satisfação de ter conseguido 20 minutos de água quente depois de duras negociações com o rapaz da recepção.

Petra é magnífica. Dois dias de visita não permitem compreender as subtilezas do erótico jogo a que se entrega a luz do sol quando acaricia as sublimes fachadas esculpidas na rocha. Valeu todos os Al Anbat II, III e até IV.

Depois de Petra o deserto. A viagem de autocarro forneceu companheiros de ocasião. Em casa de Mohammed, o guia, tentámos negociar um percurso mas cedo nos afogámos na verborreia do experiente negociante beduíno que nos convenceu das virtudes do seu percurso. Levados pela enxurrada de clichés do simpático barbudo, não nos arrependemos: cedo caminhávamos de pés descalços na areia vermelha de dunas improváveis, transformávamo-nos em pequenos pontos nas dramáticas paisagens rochosas, fitávamos incrédulos os gradientes de luz impossíveis morrendo no horizonte. Até que a noite nos cobriu de estrelas que murmuravam luminescências em promessas de sonhos. Dormimos.

Na capital o Amman Palace Hotel tinha um nome promissor. Na zona mais pobre do centro de Amman, eu não me fiava no nome. Nunca fiar. Ao chegar a entrada era promissora. A entrada promissora combinava com o nome promissor para prometer um quarto no mínimo promissor. Mas em Amman o prometido não é devido e essa noite dormi ao som dos cantos tradicionais do coro senior feminino da mesquita King Hussein interpretando o tema: Burkas ao vento, transmitido em stereo e em directo para um rádio estrategicamente situado na rua por baixo da janela do nosso quarto. Ainda tremo quando oiço a palavra "Habibi".

Confesso que no fim destas linhas podia bem repetir o ritual de fim de tarde a que a lei do ramadão nos forçou: dirigir-me ao famoso restaurante Al Hashem ao pôr do sol para uma mesa de "mezzes". Ficar ali sentado a experimentar o meu árabe de "phrasebook", descobrindo iraquianos e palestinianos, refugiados dos respectivos conflitos e que agora faziam parte dessa cidade de contrastes que é Amman.

Ficava-se ali nessa ilusão romântica de fazer parte do sítio que se visita. Até que alguém te confessa que vive na ilusão romântica de trocar de vida contigo. Aí apercebes-te que o teu romantismo é obsceno. Olhas para o relógio. São horas de voltar para casa.

Sunday, 2 September 2007

Amor e estátuas na Catalunha

O Coxo, setembro 2007

Percorre-se as ruas estreitas de Raval. Há gente descalça sentada no chão. Vigiam-nos mulheres de formas excessivas que oferecem o corpo num sorriso incompleto: seis dentes, espaço vazio, cinco dentes. Raval são prostitutas e paquistaneses.

Dobra-se a esquina e é outra cidade. Carreirinho de turistas descendo a Rambla num fervor de formigas. Homens estátua admiravelmente humanos. Tiravam-se os turistas e ficavam os homens estátua na expectativa dos pombos.

(O homem estátua ama os pombos de forma superlativa, os pombos defecam nos homens como nas estátuas. A legitimitade do homem estátua oscila assim nesta ambivalência)

Navega-se nesta torrente humana até desaguar num lugar qualquer. Tudo é muito verdadeiro: as sombras que crescem até se tocarem, a noite que cai desenhando graffitis nas vitrines, a luz que nasce nas supostas candeias.

Depois pára-se. Ri-se muito de tudo isto e observa-se as gentes que passam frente ao Mercat del Born. Dizemo-nos não sou de cá, assobiamos e ninguém acode às varandas
"já desço !"
nenhuns passos em nenhumas escadas numa agitação de ilhas
"quem é ?"
atirar gravilha às janelas e nenhum grito
"já ouvi !"
E no fim silêncio e cheiro a urina, o caminho recalcado e esta espécie de nostalgia que não sabe a nada.